«VIVER
E MORRER POR AMOR...»Estudante
camiliano

NO
SEMINÁRIO EM ROMA
Um
sacerdote da Ordem de S. Camillo, o padre Santino, seu conterrâneo,
dirigiu-lhe o convite para entrar no seminário camillianode
Roma. D’Onofrio o acolheu com alegria e logo manifestou aos pais a sua
decisão. Estes se opuseram. A mãe, porque queria que entrasse
no seminário diocesano da cidade vizinha, Chieti. O pai, porque
via que iria perder fortes braços para o trabalho no campo, sendo
Nicola o primeiro de dois filhos - o outro, Tommaso, era mais jovem - já
trabalhando em úteis serviços da casa e do campo, próprios
para a sua idade. Também duas tias solteiras, irmãs do pai,
que viviam com a família, o adulavam dizendo que o fariam único
herdeiro, se ficasse. Toda a vida de Nicolino foi de uma simplicidade genuína.
A
oposição da família durou um ano. Tempo esse que Nicolino
viveu em oração e estudo, e finalmente obteve a permissão
de entrar no Studentato Camilliano
de Roma. Era o dia 3 de outubro de 1955 quando entrou, festa de S. Teresa
do Menino Jesus, que se tornará depois sua guia espiritual. No concorrido
seminário, como ainda o eram naqueles tempos estes centros de seleção
ao sacerdócio, o jovem Nicola não escapou à observação
de quem devia colher os sinais de uma vocação certa. Logo
se percebeu uma seriedade de intenções em trabalhar sobre
si mesmo, entregando-se totalmente aos Superiores na direção
do espírito. Dois anos depois tomou conhecimento que o pai queria
que voltasse para casa. Escreveu, então, uma forte carta comunicando
a sua irremovível vontade de continuar para o sacerdócio
na Ordem Camiliana, custasse o que custasse. Várias as motivações
apresentadas para sustentar a sua decisão, entre tantas o pensamento
de S. João Bosco: “A mais bonita dádiva para uma família
é ter um filho sacerdote”.[1]
NOVIÇO
No
dia 6 de outubro de 1960, vestiu o Hábito dos religiosos de S. Camilo,
iniciando assim o ano do noviciado. No final do curso de exercícios
espirituais, dessa etapa muito importante da sua vida, escreveu: “...Jesus,
se um dia terei
que abandonar como tantos o hábito santo, faça que eu morra
antes de recebê-lo pela primeira vez; não tenho medo de morrer
agora, estou na tua Graça. Que coisa suave poder ver-Te junto à
Tua e minha mãe: Maria!”.[2]
Durante
todo o ano do noviciado registrou no seu “Diário” propósitos
e pequenas conquistas, momentos de luta e de aridez. Nesse escrito se evidencia
a vontade firme de continuar no caminho da chamada divina, entregando-se
à ajuda do Céu, sintetizado nessa expressão: “O
demônio se vence estando próximo de Jesus e Maria pelos sacramentos
e oração”.[3]
Já
nesse momento vivia intensamente o carisma camiliano. De maneira singular
brilha pela assistência prestada a um coirmão de idade, o
Pe. Del Greco, gravemente doente por causa de um tumor na garganta. Vale,
particularmente, lembrar o que disse ao mesmo sacerdote na Sexta Feira
Santa daquele ano: “Padre, una as suas dores àquelas de Jesus
agonizante... hoje é Sexta Feira Santa, dia bonito para o senhor
que sofre junto de Jesus”.[4]
PRIMEIROS
VOTOS RELIGIOSOS
Na
manhã do dia 7 de outubro de 1961, festividade da Beata Virgem do
Rosário, pronunciou, com validade de três anos, os votos de
Pobreza, Castidade, Obediência e Caridade para com os doentes, mesmo
que contagiosos, depois de um intenso ano de preparação,
considerado ótimo pelos Padres Capitulares . Teve início,
naquele dia, o período de formação como Religioso
Professo Camiliano. Sereno e feliz, disponível para com todos, observante
da vida em comum, assíduo nas orações e diligente
nos estudos, com humildade e simplicidade, sem assumir comportamentos atípicos
ou teatrais.
Os
seus superiores diretos - o Provincial, padre Andrea C. e o Mestre dos
clérigos padre Renato D. - são os seus guias e testemunhas
do seu progredir, lento mas constante, ao cimo do Monte Santo de Deus.
Teve um amor ardente para Jesus Eucarístico, que recebia diariàmente
e visitava freqüentemente de dia na igreja do seminário, ou
da Universidade Gregoriana. Matriculou-se também na “Guarda de
Honra ao Sagrado Coração de Jesus”,
escolhendo o horário das 8:00 às 9:00 horas como seu momento
de reparação.[5]
Tinha uma filial e tenra devoção para a Virgem Maria, sem
cair nunca em banais e superficiais sentimentalismos. Uma acesa devoção
para S. Teresa do Menino Jesus,levou-o
a assumir a espiritualidade da pequena via.
NO
CARISMA DE SÃO CAMILO
Um
amor profundo ao seu Pai e Fundador S. Camilo, estudando profundamente
o seu espirito ,sonhando intensas jornadas de trabalho no serviço
dos doentes, quando no futuro se tornaria sacerdote. Não tinha medo
de manifestar a todos o seu ardor para a vocação camiliana.
Diligente nos estudos, aplicava-se seriamente nas tarefas escolares, cultivando
estima e afeto para os professores. Era dócil e atento, ansioso
para compreender a ciência que lhe era apresentada, considerada necessária
para desenvolver dignamente o seu sacerdócio no serviço dos
irmãos sofredores.
No
breve período de vida como estudante religioso camiliano, demonstrou
grande amor e apêgo à sua nova família, declarando-se
feliz de permanecer na Casa religiosa, saindo pouco, e dedicando seu coração,
talento e tempo às várias necessidades da comunidade religiosa.
A
DOENÇA
No
fim do ano de 1962, começou a sentir os primeiros sintomas do mal
que o levaria à morte aos 21 anos de idade. Submeteu-se obediente
às decisões dos superiores e dos médicos desde o primeiro
momento. No dia 30 de julho de 1963, foi operado no setor de urologia do
hospital S. Camilo de Roma.[6]
O exame histológico da parte extirpada deu uma clara resposta de
um final já marcado para um breve prazo: teratosarcoma.[7]
No
recomeço do Ano Acadêmico, no outono, os Superioreso
matricularam no primeiro ano de filosofia na Pontifícia Universidade
Gregoriana, apesar
de já estar tomado profundamente pelo câncer.[8]
Também nesse ambiente - para professores e colegas - se evidencia
a sua diligência, serenidade e bondade de ânimo.
No
começo de janeiro de 1964, foi feita mais uma radiografia no tórax.
O pulmão direito apareceu invadido quase completamente pelo câncer.[9]
D’Onofrio percebeu definitivamente o seu real estado de saúde, mesmo
se ninguém ainda lhe tivesse falado da gravidade de sua situação,
aliás todos concorriam para esconder e simular as suas condições,
já então sem esperança. Isso se deduz da conversa
que teve com o seu irmão Tommaso, em que acenava da certeza de sua
próxima partida deste mundo, expressando sòmente preocupação
para a grande dor que a mãe iria sentir.[10]
TOTALMENTE
DE DEUS
UMA
FLOR NO CORAÇÃO DE DEUS
Um
dos coirmãos ligado a Nicolino por profunda amizade, escrevia nos
dias seguintes à morte: “Agora aqui entre nós ficou sòmente
um caule truncado, o seu caule. A flor voou até o coração
de Deus. Por isso que, pensando ou falando de Nicolino, naturalmente olho
para o alto, desnorteado, inclinado. O meu herói! Tinha entrevisto,
sonhado o ideal da santidade, nunca tinha alcançado, porque para
tocar uma coisa tem que estar perto, e para que a admiração
seja sem sombra, tem que se poder imitar o herói que a inspira.
Toquei no meu herói, e depois... pareceu fugir. Mas como Teresina
com Celina, eu creio que ele caminhará sempre ao lado de quem soube
descobrí-lo. Amo-o, já é o meu pequeno grande Santo,
com a sua e minha Teresina”.[13]
NA
ESPERA DA RESSURREIÇÃO
Presente
no sagrado rito fúnebre uma multidão de coirmãos,
amigos, conhecidos. Os aflits e dilacerantes pedidos da mãe induziram
os superiores a conceder que os restos mortais de Nicola D’Onofrio fossem
enterrados em Villamagna, sua terra natal, no jazigo da família.
A última viagem de volta à sua aldeia aconteceu o dia 15
de junho, acompanhado pelos superiores e coirmãos.
Depois
da solene celebração eucarística, que contou com a
participação de toda a população, foi sepultado
na Cappella Ferrara,
da família da mãe. Desde o dia 8 de outubro de 1979, Nicola
D’Onofrio repousa nos arredores da Cripta do Santuário S. Camilo
em Bucchianico, à vista da sua casa natal, reunido à sua
família religiosa, na espera da ressurreição no último
dia quando voltará o Cristo triunfador sobre a Morte.
...E
VEM DE LONGE!
Aqueles
que o conheciam intìmamente, ou sòmente tiveram oportunidade
de ter contato com ele na fase conhecida por todos do rápido fim,
enfrentado com serenidade e o sorriso nos lábios, dão testemunho
que foi um comportamento excepcional. E não foi improvisado, nem
superficial. A sua ascensão ao Monte Santo de Deus vem de muito
longe.
As
páginas dos seus escritos originais nos revelam este caminho iniciado
desde os primeiros momentos de sua vida no seminário camiliano.
A fase terminal de sua vida e a morte são somente o momento revelador
de sua dimensão espiritual.
A
HERANÇA ESPIRITUAL
A
extraordinária emoção afetiva e religiosa que acompanhou
o seu fim, tornada mais dramática pelos terríveis sofrimentos
provocados pela doença, deve seratribuída
à verdade “que no sofrimento um homem se torna completamente novo...
quando esse corpo é profundamente doente, totalmente inábil
e o homem é quase impossibilitado de viver e agir, mais ainda se
destacam a maturidade e grandeza espiritual interior,
constituindo-se em uma comovente lição para os homens sãos
e normais”.[14]
Exceto
casos esporádicos de incompreensão, todos advertiram que
naquela alma Deus tinha provocado umas respostas extraordinárias,
e o caminho tinha sido veloz até a Santa Montanha.
Uma religiosa sua coetânea e amiga de infância escreveu que
quando soube do seu falecimento sentiu ressoar no seu coração
as palavras da Sabedoria : “Chegado em pouco tempo à perfeição,
completou uma longa carreira; e sendo sua alma aceita a Deus, por isso
foi tirado às pressas do meio da malícia”(4,13-14a).
Um
final de vida assim não pode ser improvisado. Vem de longe, e o
tempo da morte é somente a ocasião da revelação
do trabalho interior desenvolvido. E ele o construiu fundamentalmente sobre
a
Cruz e a Paixão do Senhor Jesus,
com o olhar dirigido sempre para a Glória da Ressurreição.
Testemunham isso os seus “Escritos”[15]
e aqueles que o freqüentaram.
DOS
SEUS ESCRITOS
A
chave de leitura reveladora da sua caminhada aparece logo no início
da sua nova vida no Seminário menor, quando escutando uma meditação
sobre o amor de Deus Pai para o Homem, durante os Exercício Espirituais
anuais, escreve: “Podemos dizer que não se importou muito com o
seu Filho unigênito para nos salvar. Jesus morreu para nós
e o seu sangue, até a última gota, lavou a nossa alma. Quanto
amor teve por nós Jesus!”[16].
Uns
meses mais tarde, ao final do Retiro mensal, assim destaca a meditação
ditada: “Jesus veio na terra para dar glória ao Pai que o tinha
enviado, e para chegar aqui “exinanivit se”, aniquilou-se. A Encarnação,
a Crucificação, a Eucaristia, são atos de aniquilamento
por amor de nós e glória ao Pai. Vindo na terra Jesus nos
deu o exemplo do aniquilamento; agora nós temos que seguí-lo
para dar ao Coração Santíssimo a glória que
merece para compensar o seu amor”.[17]
Não
porém nessa confissão registrada imediatamente depois da
anterior: “Passaram as festividades da Páscoa. Quantas impressões!
Para mim foi uma alegria inestimável poder seguir, aliás
participar, assim tão de perto das sacras funções
da semana santa. Mas conservo uma particular lembrança dos acontecimentos
nesse período. Fiquei feliz de poder assistir ao caríssimo
padre Del Greco na noite entre quarta e quinta feira santa. Naquela noite
teve a adoração a Jesus de onze até meia-noite aqui
em casa. Eu fiz isso ao lado de Jesus sofredor na pessoa do padre. (Fiz
nessa intenção mesmo). Agora parece que está melhor,
tomara!”[19]
O
sacerdote camiliano que ele assistiu, operado de um tumor à garganta,
completou depois quanto o D’Onofrio não escreveu nos seus “Apontamentos
Espirituais”: “Estava
quase morrendo e o clérigo D’Onofrio me assistia e confortava dizendo-me:
‘Padre, una as suas dores àquelas de Jesus agonizante. Hoje é
Sexta Feira Santa, que dia bonito para o senhor que sofre junto de Jesus!’
Nunca esqueci aquelas palavras, que o nosso clérigo me sugeria com
tanta amabilidade e fé”. [20]
Ao
lado do Cristo Crucificado, Nicolino nutriu uma afetuosa e especialíssima
ligação filial com a Mãe, Maria Imaculada. Nos seus
Scritti,
e no leito de morte, tem expressões tenras e doces que devemser
consideradas na dimensão de uma relação íntima
e secreta da alma, que exigem respeito e grande consideração,
na mesma medida que temos contemplando relações similares
dos Santos, que a Igreja nos aponta como modelo.Vamos
transcrever um trecho: “Estou cansado, diria até desanimado... A
vida de Noviciado me pesa... Porque? É o inimigo mortal da minha
alma que cansa, é o Senhor que me purifica. Quando terá fim
esse lugar de exílio?... “Ai, dura terra...” Quero morrer logo,
se Deus querer, para voar nos braços da minha Mãe. Quero
ir repousar no Céu. Sim...Mãezinha doce... Eis que lentamente
a serenidade volta ao meu ânimo e posso mirar mais longe... É
essa a vontade de Deus. “Tota vita Christi crux fuit et martyrium...” e
eu o que quero? Fazer o senhor. Não, não, não. Mas
tudo por vós Jesus, Maria!”[21]
Sobre
S. Teresa tinha reunido quanto tinha sido publicado, pedindo diretamente
ao Mosteiro de Lisieux as última publicações. Conhecia
òtimamente a língua francesa, e aplicou-se para traduzir
as Poesias dela. Para completar quanto brevemente estamos escrevendo, relatamos
duas estrofes de “Viver por amor”,que
nos revelam a sua ansiedade em conformar-se ao seu amado Cristo Crucificado:
“...
Viver
de amor, sobre
essa terra não significa /plantar as tendas no cume do Tabor. /Significa
subir com Jesus no Calvário. /Significa ver a cruz como um tesouro!
/no céu, viverei de alegria. /A prova então desaparecerá
para sempre, /aqui porém quero, no sofrimento /viver de amor! -
...Morrer de amor, é um martírio doce demais, /e é
isso que gostaria de sofrer. /Querubins! Acendeis as liras, /porque, o
sinto, está para acabar o meu exílio... /Dardo ardente, consumai-me
sem trégua, /dilacerai-me o coração nessa triste passagem.
/Jesus divino, realizai o meu sonho: morrer de amor!...”.[24]
É
esse o segredo da grande emoção, estima e entusiasmo que
despertou o seu dramático último ano de vida e a sua passagem
ao Céu. Advertia-se amplamente a dimensão espiritual na qual
se encontrava submerso, e que o trecho seguinte da última carta
escrita aos pais fielmente sintetiza: “Eu estou muito feliz de poder sofrer
agora que sou jovem, porque estes são os anos mais bonitos para
oferecer (algo) ao Senhor. Santa Teresinha é a santa de quem eu
mais gosto porque é muito parecida comigo. Ela também ficou
doente quando tinha pouco mais de vinte anos, sofreu muito e com vinte
e quatro anos morreu... Pais caríssimos, orai por mim para que o
Senhor me deixe melhorar, assim poderei tornar-me sacerdote e trabalhar
ainda muito para as almas. Porém, se o bom Deus quisesse algo diferente
de mim e de vós, seja bendito o Senhor, porque Ele sabe o que faz
e o que é melhor para nós. É inútil, nós
não podemos saber essas coisas, somente Deus as sabe...”.[25]
Na
lembrança de algumas TESTEMUNHAS
Quem
soube ler os sinais que chegaram do seu comportamento diante da suprema
prova da vida, acolheu a Mensagem.
As manifestações de estima que foram expressas no momento
da sua morte e, como já foi dito, se concretizaram em uma extraordinário
surto de emoção afetiva e religiosa, transpuseram os limites
da Comunidade Camiliana e do tempo.
Não
com as nossas palavras, mas com uma breve seleção daquilo
que as Testemunhas escreveram para a Postulação Geral da
Ordem Camiliana, vamos expor a confirmação do que Nicolino
nos deixou em escritos.
Assim
a revista da Milizia dell’Immacolata
(Milícia da Imaculada) o apresentou aos seus leitores: “Tinha alcançado
o terceiro grau da Milícia da Imaculada: o da oferta sem limites;
doar-se totalmente a Maria, acolher com fé e generosidade todo o
sofrimento para conformar-se ao mistério da paixão e da morte
de Cristo, até o martírio. Nicolino, consumido pela dor,
se oferecia como vítima para tantos irmãos necessitados de
esperança e de salvação. Também se em modo
e circunstâncias diferentes, a sua oferta pode ser comparada àquela
do Padre Kolbe, que na Imaculada achou a força e o amor para doar-se
completamente, não só como pai de família, mas para
a humanidade inteira. A morte do clérigo camiliano e o martírio
do padre Kolbe têm a sua explicação e a sua mensagem
na Palavra eterna do Evangelho... Nicolino, tão jovem e tão
sapiente, tinha compreendido muito bem o que padre Kolbe dizia em um seu
escrito: “Se vive uma só vez, não duas. Temos que tornar-nos
santos, não pela metade, mas totalmente, para a maior glória
da Imaculada, e através da Imaculada, para a maior glória
de Deus...”
“Assistia,
naquela noite, o D’Onofrio, e acordei, ao alvorecer, com os seus gritos
penosos. Precipitei-me no quartinho; ele, apoiado nos cotovelos, quanto
as forças lho permitiam, pedia a a Deus de curar-se: “serei um sacerdote...
salvarei muitas almas... cura-me, Senhor, rogo-lhe... Mãe minha
intercedei... São Camilo...! Pai, ajuda-me... vamos, rogamos juntos,
tenho que obtê-lo, esse milagre... devo curar-me!....”. Levantei-oe
o ajudei até acalmar-se, exausto. Depois, em tom mais calmo, e cheio
de resignado abandono, disse: “Bem... porém, se não for possível...
seja como você quiser, meu Deus!”. Esse é o sentido das suas
palavras, mesmo que não as esteja lembrando ao pé da letra.
Impressionou-me a maneira de se dirigir a Deus, aquela aceitação
última, tanto que não pude deixar de compará-la àquela
de Cristo na Cruz, que pede suplicante e termina com a maravilhosa submissão
à Vontade do Pai.
Logo
os Professores competentes decidiram de intervir com a cirurgia. Dócil
e obediente, como sempre, aceitou com espirito de profunda união
a Cristo sofredor, como S. Teresinha, atacada pelo último mal, aceitou
submeter-se a tão delicada cirurgia... Mas tudo aceitou sem reagir,
deixando-se, tão dòcilmente e progressivamente, estender
e pregar na sua Cruz... Passou o período de Páscoa recolhido
em intensa meditação sobre a Paixão do Senhor, empenhando-se
principalmente em resignar-se. De fato não tinha mais dúvida
quanto ao seu mal, percebia cada dia mais forte, espalhar-se nos seus membros.
Advertia já muito mais cansaço mesmo nas pequenas coisas,
porque respirava com crescente dificuldade. Emagrecia dia após dia,
mesmo se se procurava todos os meios para sustentá-lo e estimular
um pouco o apetite”.
“Mas
quis Jesus, Sacerdote Eterno, encurtar-lhe o tempo de espera levando-o
logo no cimo do Calvário, onde o nosso Nicolino, tornando-se holocausto
por todos, se ofereceu heròicamente a Deus, qual vítima do
amor, no exemplo de Santa Teresa do Menino Jesus, que o quis hóspede
em Lisieux, na França, pouco antes de passar da terra para o reino
dos bem-aventurados, através da porta estreita indicada pelo Evangelho
para poucos eleitos.”
“Revi-o
no leito de morte. Fiquei impressionado pelo seu rosto. Rosto escarno,
sério, seco a todo tipo de luz. A sua passagem foi verdadeiramente
de martírio. A sua hora imersa na escuridão. Tinha, Nicolino,
saboreado o amargo do Cálice de Jesus. E levava no rosto a marca
da careta em frente ao amargo. Penso, agora, à fisionomiado
Servo Sofredor de Isaías: “Não tem aparência bela nem
decorosa para atrair os nossos olhares, nem esplendor para que nele nos
comprazamos” (Is. 54,2). Assim como Jesus também Nicolino “foi eliminado
da terra dos vivos” (Is. 54,8).
E
terminamos com as expressões de uma amiga da mãe, há
anos transferida em Roma, que seguiu e assistiu o jovem estudante camiliano
na sua caminhada de sofrimento. Alma simples, assim revivia aqueles momentos,
à distância de muitos anos: “Parecia Jesus Cristo na Cruz,
sereno e confiante, com a oração nos lábios, chamando
Nossa Senhora de “Mãe”.
Depois reclinou a cabeça no lado esquerdo, a língua se mexeu
um pouco, e sem outros movimentos, assim em serenidade morreu. O doutor
verificou o acontecido, abriu a porta e chamou a mãe: “senhora,
eis seu filho”, como se fosse Nossa Senhora, a qual foi entregue o filho
Crucificado. A mãe se atirou por cima do filho, e depois ajoelhou-se
chorando muito...”.
Fortemente
unido à Mãe de Deus, viveu coerentemente o “Tota vita
Christi crux fuit et martyrium”,
escrito em uma tranqüila noite de Noviciado, aderindo com força
com “Tudo por vós, Jesus e Maria”.
A
“nova maternidade”- que a Virgem Maria recebeu do Filho moribundo na Cruz
- “espiritual e universal para com todos os homens, para que cada um,
na peregrinação da fé, continuasse fiel, junto com
Ela, fortemente unido até a Cruz e, com a força dessa Cruz,
todo sofrimento regenerado se tornasse, da fraqueza do homem, potência
de Deus”[27], em
Nicola D’Onofrio realizou-se plenamente, e continua no tempo um esplêndido
modelo.
O
jovem
estudante camiliano,
passando através do mistério do sofrimento humano elevado
pelo Cristo a nível de redenção[28],
com alegria e serenidade, foi e permanece uma testemunha crível de
que a escolha feita de viver os Conselhos Evangélicos “manifesta
os bens do Céu já presentes nesse mundo, testemunha melhor
a nova e eterna vida alcançada pela Redenção de Cristo,
e preanuncia melhor a futura ressurreição e a glória
do Reino Celeste”[29].
Os
jovem que têm oportunidade de conhecer a sua breve experiência
terrena ficam fascinados. Como exemplo lembramos Marie-Louise, que querendo
seguir o convite de João Paulo II em Compostela de “N’ayez pas
peur de devenir saint!”,
nos escreveu que decidiu de tomar “Nicola D’Onofrio como modelo de
vida... procurava um modelo de vida contemporânea e achei na vida
desse jovem os desígnios que escolhi seguir faz pouco tempo”[30].
Já faz tempo que Marie-Louise se dedica integralmente em uma das
novas instituições de vida consagrada no mundo, ao serviço
de Deus através do serviço aos irmãos e irmãs
doentes e pobres.
Camiliano
MÁRTIRES
DA CARIDADE
São
Camilo recebeu de Deus o carisma
de testemunhar ao mundo o amor sempre presente de Cristo para os
doentes e os sofredores.
Aos três votos comuns a todas as congregações religiosas
“Pobreza - Castidade - Obediência”, quis um quarto,
de estar sempre presente “etiam pestis incesserit”,
hoje traduzido em “sempre, mesmo com risco de vida”.
Os
Religiosos
Camilianos Mártires da Caridade
nesse primeiros quatro séculos de vida são cerca de 300,
e deles se conhecem os nomes de somente 252. Muitos são aquele que
sacrificaram a própria vida e são Anônimospor
causa da dramaticidade dos momentos em que aconteceram os fatos, que sem
dúvida não deixavam espaço para relato jornalístico.
No
ano de 1589, alguns anos antes do início da Fundação,
em Pozzuoli
se tem o primeiro sacrifício em ocasião do atendimento a
uma frota de “muitas galeras cheias de milícias espanholas”, atacada
pelo tifo petequial, dito também “castrense”. Foram três os
religiosos que São Camilo “logo ofereceu as almas suas à
sua Divina Majestade como primícias de todos os outros que no futuro
com esse novo gene de morte vão sacrificar a vida deles para a saúde
do próximo...”.
No
ano de 1606, em Nápoles, por causas de febres contagiosas, temos
o sacrifício da vida de um jovem de Bucchianico para assistir os
doentes no Hospital SS.ma Annunziata:
o sobrinho Onofrio de Lellis,
ainda Noviço e levado como exemplo para toda Congregação.
É o próprio Santo Tio que o assiste até a morte e
chora por ele fortemente. Nessa dramática ocasião muitos
outros perdem a vida e entram no anonimatode
que falamos antes. Os cronistas daquele tempo escrevem que “tantos foram
os nossos que morreram, que nem era mais tocado o sino na hora do enterro
para não assustar os vizinhos”.
O terrível
flagelo da peste que
atingiu a Itália em 1656 marca o sacrifício de 96 Religiosos
Camilianos em várias cidades, como se evidencia no quadro a seguir.
Entre eles o Superior Geral, o padre Marco Antonio Albiti, e os Superiores
Provinciais de Roma, padre Luigi Franco, e de Nápoles, padre Prospero
Voltabio. Nos Atos de Consulta daquele tempo se acha escrito que “as nossas
Casas quase desoladas pela perda dos seus moradores religiosos... está
muito abalada a nossa Pobre Religião sem o Chefe e muitos dos seus
membros...”, mas inabalável permaneceu a fé no SS. Crucifixo
que com amplas promessas disse ao nosso bendito Padre Camilo de Lellis
de querer perpetuar o nosso Santo Instituto...”.
As tormentas
sobre a “plantinha”
de São Camilo passaram e a Ordem Religiosa se fortificou e se espalhou
nos cinco Continentes.
Última
contribuição de sangue para estar perto ao doente sempre,
também com o risco da própria vida,
acontece na Espanha durante a bem conhecida Guerra Civil da
década de ’30 desse fim de milênio: são 12
os Religiosos Camilianos que “in odium fidei”
testemunharam o amor sempre presente de Cristo
para os sofredores. E também se não entraram no Álbum
dos Santos oficialmente
reconhecidos, esperamos que entrem no Martirologio do Jubileu, como
se pode bem esperar.
<<Os
textos e as informações são do livro de Ruffini Felice,
La
vita per Cristo,
Edições Camilliane, Torino 1993, pgs 140>>